29 de setembro de 2016

O rapaz que habitava os livros


O rapaz que habitava os livros


Barafustaram comigo, nem escutaram o que eu queria que entendessem. Diziam que os livros queimavam os olhos, eram diurnos, não serviam para as noites. As regras do nosso colégio interno, para meninos casmurros como eu, mandavam assim.
Queriam os livros no corredor. As luzes apagadas às nove.
Eu ainda deitei mão a alguns volumes, toquei-lhes brevemente igual a quem cai num precipício e procura agarrar-se, mas não me deixaram nada. Apenas o candeeiro já apagado, como se a luz tivesse morrido de tristeza.
Adormeci muito mais tarde, de todo o modo. O coração rasgado em papelinhos pequenos. E uma gula esquisita embrulhada no estômago parecia dizer que eu não havia jantado.
Fui ver a minha nova estante logo pela manhã.
Era um bocado de espaço arranjado entre tralhas meio esquecidas. Fiquei ofendido. Os livros não esquecem nada. Eles são para sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à sua própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devam importar, porque podem esperar eternamente.
Alguém colocara uma pequena placa dizendo: não alimente os animais. Fiquei sem saber se queriam dizer que os livros eram bichos comendo as nossas ideias ou se seria eu um devorador de páginas, alimentado de palavras como as histórias. As histórias podem comer muitas palavras.
Pensei: os meus queridos livros. Era o que pensava e sentia: os meus queridos livros. Olhava-os como se estivessem vivos e pudessem sofrer. Como se pudessem também entristecer.
Gostei de colocar a hipótese de os livros serem como bichos. Isso faz deles o que sempre suspeitei: os livros são objectos cardíacos. Pulsam, mudam, têm intenções, prestam atenção. Lidos profundamente, eles estão incrivelmente vivos. Escolhem leitores e entregam mais a uns do que a outros. Têm uma preferência. São inteligentes e reconhecem a inteligência.
Os livros estão esbugalhados a olhar para nós. Quando os seguramos, páginas abertas, eles também estão esbugalhados a olhar para nós.
Os meus colegas ficaram todos a rir-se para mim. Eu era conhecido como o rapaz que perdia a hora de dormir. Tinha a cabeça na lua, diziam. Não me importei nada. Rirem-se de nós pode ser só um erro no ponto de vista. E eles, todos eles, estavam errados.
A primeira vez que vi um livro, que me lembre, era um que estava aberto, pousado sobre a mesa, com as folhas em leque como se fossem uma colorida flor contente.
Podia ser uma caixa esquisita para arquivar pétalas secas, podia ser para guardar documentos ou cartas de amor. De perto, era afinal um livro muito branco, cheio de palavras impressas. Julguei que podia ser um bordado miudinho. Um enfeite para que as páginas ficassem bonitas. Pensei que fosse uma prenda de enxoval.
Depois, compreendi, era o modo silencioso das conversas. Todos os livros são conversas que os escritores nos deixam. Podemos conversar com Camões, Shakespeare, machado de Assis, mesmo que tenham morrido há tantos anos.
A morte não importa muito para os livros.
Mais tarde, aprendi que os livros acontecem dentro de nós. Claro que eles podem ser bonitos de se ver, mas são sobretudo incríveis de pensar. Eu disse que ler é como caminhar dentro de mim mesmo. E é verdade. Quando lemos estamos a percorrer o nosso próprio interior.
Uma menina do colégio perguntava-me sempre se eu queria brincar às coisas bonitas. Brincar de beleza, dizia assim. Era igual a ficarmos cheio de delicadezas a fazermos de conta que adorávamos de tudo: os puxadores velhos das portas, os livros de álgebra, as meias rendadas da professora, a sopa de beterraba à hora de jantar no refeitório ou o cão zangado do guarda nocturno. Servia de maneira divertida para fazermos de conta que o mundo era maravilhoso e, subitamente, o mundo inteirinho parecia mesmo maravilhoso. Isso era tão bom de sentir.
Um dia, eu disse: vamos brincar à beleza das coisas que se pensam, como as que se lêem. Porque as coisas que se lêem precisam de ser pensadas. E ela perguntou: as que existem ou as que não existem? E eu disse: todas. As coisas todas que pudermos imaginar.
Então, ela propôs: pássaros com trombas de elefante a voar sobre cabeças de mulheres com cabelos de raízes de árvores. Rimos muito e eu exclamei: que lindo. Repeti, lentamente: pássaros com trombas de elefante a voar sobre cabeças de mulheres com cabelos de raízes de árvores. Depois acrescentei: chávenas de chá com bocas falantes que ferram as mãos de quem as tenta pegar. Rimos muito e ela exclamou: que lindo. Repetiu: chávenas que ferram.
Ela disse: carros com pneus feitos de batatas gigantes que têm pêlos como as pernas dos homens e a transportar famílias de galinhas felizes. Rimos e eu exclamei: que lindo, adoro galinhas felizes. Repeti: carros com famílias de galinhas felizes.
E se fosse um homem com tartarugas ao invés de olhos? Ia ver muito devagarinho. E outro que tivesse um canguru ao invés de boca? Ia falar aos saltos.
Uma árvore que tivesse braços de pessoa ao invés de troncos e segurasse ninhos de cegonhas nas mãos. Que lindo! Depois, eu disse: os meus pais a darem um beijo. E os meus avós. E ela respondeu: e os meus também. Os meus também. Rimos, e exclamamos subitamente em conjunto: que lindo.
Fui dizer-lhe que me haviam levado os livros do quarto. Estava igual a sozinho. Absolutamente sozinho a noite inteira. E ela respondeu: isso é feio. Sabia bem que importância tinham para mim as histórias. Ela perguntou: e agora? Eu respondi: passo os dias à espera dos intervalos para ler um bocadinho. Passo as noites a sonhar à pressa para poder acordar e voltar a ler. Ela respondeu: sonhar à pressa é uma pena.
Quando eu sonhava que lia, acordava. Parecia um castigo. Era comum, subitamente, que eu me esquecesse de tudo durante os intervalos. Corria para os bancos no lado da frente do colégio, à vista dos janelões principais, e aí deitava os olhos às letras e a alma inteira à imaginação. Quando era hora de entrar, tantas vezes algum colega vinha cutucar-me. Diziam: anda, seu distraído. Anda embora.
Um dia, ninguém me cutucou. Fiquei apenas caminhando dentro de mim mesmo, o que era diferente da solidão.
A professora mandou dois rapazes aos janelões da frente a chamar por mim. Assim chamaram. Mas eu, juro muito, não os ouvi.
Voltaram para dizer à professora: parece que se mudou para dentro do livro porque não ouve a nossa voz. Usámos os binóculos da sala de ciências e vimos bem, senhora professora. Ele sorri. Está feliz.

Isso levantara o problema de saber como trocar a felicidade pelo regresso à aula.


in Contos de cães e maus lobos, Valter Hugo Mãe, p.87



12 de maio de 2016

Semana dos Média /media Week - Inquérito de satisfação

Terminada a atividade  Semana dos Média/ Media Week, realizada de 2 a 9 de maio, falta concretizar a avaliação.

Mais uma vez, apelamos à vossa colaboração! Disponibilizem 5 minutos e acedam ao questionário através da seguinte ligação: 

Semana dos Média / Media Week


No âmbito da Semana dos Media/Media Week, assinalada entre os dias 3 e 9 de maio, realizaram-se, na Biblioteca Escolar, três sessões de apresentação dos trabalhos elaborados pelos alunos do 10.º ano aos alunos do 8.º ano.

Os trabalhos incidiram sobre o uso dos ‘Social Media’, especificamente no que respeita à sua utilização como veículo de transmissão e tomada de conhecimento sobre os mais variados assuntos mediáticos e sociais.

Na Biblioteca Escolar, esteve também disponível um PowerPoint que permitiu a visualização de todos os trabalhos realizados pelos alunos. 

26 de abril de 2016

42 anos de Abril

Os 42 anos de abril foram assinalados na escola com duas atividades:

-  Exposição na biblioteca escolar



- Momento cultural com leitura de poema de Manuel Alegre e canto e acompanhamento musical de 3 canções, uma de Bob Dylan e duas de José Afonso.


Apresentação powerpoint:

Filme (clicar na imagem)




No final da sessão foram distribuídos alguns cravos aos alunos participantes, elaborados pela equipa da BE.


13 de abril de 2016

Semana da Leitura - Inquérito de Satisfação


Terminadas as atividades no âmbito da "Semana da leitura" realizadas de 14 a 18 de março e após a publicação da retrospetiva fotográfica, do vídeo referente ao LCD - O Cavaleiro da Dinamarca e da leitura expressiva do conto de Ondjaki, falta concretizar a avaliação.

Mais uma vez, apelamos à vossa colaboração! Disponibilizem 5 minutos do vosso precioso tempo! 

Acedam ao questionário através da seguinte ligação: 


https://docs.google.com/forms/d/1Z7BS0ylkj20G5CUKcSx48fRKgHowkHN9ZP8MOcti8lw/viewform


A equipa da BE, agradece! 

Muitas e Boas Leituras!!!!

4 de abril de 2016

Dia do francês - inquérito de satisfação

Disponibiliza-se o link que dá acesso ao inquérito de satifação da atividade "Jour du Français" realizada no dia 10 de março.

https://docs.google.com/forms/d/1VBHWNtW4clUZPFzZz94Cg2wzY_HKPzgAKIR61znrvGQ/viewform


As professoras de francês agradecem a vossa participação.


1 de abril de 2016

Ler, Criar, Dramatizar - LCD


APRESENTAÇÃO DA ADAPTAÇÃO DA OBRA
  "SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES"


4 de abril | 19h00 | Centro de Artes de Sines (auditório)

Os alunos da Escola Secundária Poeta Al Berto apresentam uma adaptação da obra "Sermão de Santo António aos Peixes", do Padre António Vieira, no auditório do Centro de Artes de Sines, no dia 4 de abril, pelas 19h00. A entrada é livre.


O projeto é fruto da residência artística realizada pelos alunos no Centro de Artes de Sines, entre 28 de março a 1 de abril de 2016, sob a orientação da equipa técnica do Serviço Educativo e Cultural do Centro de Artes de Sines.

Participantes:

Carolina Castro- 10ºA
Guilherme Chalupa- 11ºA
Inês Póvoas - 11º C
Marta Ramalho - 9º B
Martim Simões - 11ºA
Mariana Plácido - 11º A
Tomás Afonso - 11ºA



21 de março de 2016

Dia Mundial da Poesia



                               in "30 aniversário do CCEN -Três Décadas: Diálogos Intemporais."



V

Ele murmura:
deixemos o sonho para quando os corpos se perderem
no excesso das imagens ou na sua irritação
eles simulam o amor

um olhar rápido pelo lugar abandonado
pressente-se ainda a fuga dos corpos
na aragem que limpa a casa
a memória poderá reconstruir tudo a partir das imagens
e do intenso cheiro a mato
por agora nada mais é visível
...azul e mais azul e nenhuma mudança na paisagem
nenhum vestígio

as luzes apagaram-se o material foi guardado
o lugar adormece por baixo do bolor imutável
e no esquecimento
os actores caminham para o fim do filme

um gravador esquecido
regista os passos que se afastam devagar
não sabemos ao certo para onde


in Trabalhos do Olhar, Filmagens 1980/81, Al Berto


8 de março de 2016

Semana da leitura - Pais leitores


Semana da Leitura - LCD8


Semana da Leitura - Sessão de autógrafos


Semana da Leitura - "À conversa com..."








Dia Internacional da Mulher




O mar dos meus olhos


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

1 de março de 2016

Projeto MILD: Manual de Instruções para a Literacia Digital

No dia 24 de fevereiro, um grupo de alunos do 11.º e 12.º anos realizou um pré-teste no âmbito do projeto MILD, de forma a permitir melhorá-lo e desenvolvê-lo numa fase seguinte. Os alunos navegaram pela plataforma e responderam a várias questões de três áreas distintas: Leitura digital, Tecnologias e Media, Cidadania.
Este projeto, apoiado pela RBE e pela Fundação Calouste Gulbenkian,  visa criar uma plataforma com conteúdos, estratégias e atividades que ajudem a uma utilização mais qualificada dos atuais ambientes digitais pelos alunos do ensino secundário.



29 de fevereiro de 2016

Reutilizar Manuais Escolares



No âmbito da atividade "Reutilizar Manuais Escolares", a biblioteca escolar recolhe livros escolares usados. 

Os manuais adotados na escola ficam na biblioteca para empréstimo aos alunos.
Os manuais antigos e não adotados são entregues a associações/campanhas de solidariedade. Este ano optámos pela campanha "Papel por alimentos" do Banco Alimentar. 
A primeira remessa já foi entregue como se pode ver nas fotografias. 

Participa na campanha de recolha de manuais escolares usados. Entrega os teus na Biblioteca Escolar. 









Dia da Internet Mais Segura



No dia 9 de fevereiro, comemorou-se o Dia da Internet Mais Segura. Anteriormente, e em contexto de sala de aula, sob orientação do professor de TIC, os alunos das três turmas do 8.º ano, produziram, cartazes e/ou folhetos utilizando o  Publisher

A Biblioteca Escolar (BE), em articulação com o professor da disciplina, selecionou alguns folhetos para publicação no blogue e selecionou imagens para a produção do powerpoint - "Pensar antes de publicar".
No dia 11 e 14 de fevereiro, as turmas do 8.º ano deslocaram-se com o professor de TIC  à BE  para visualizarem, três pequenos filmes alusivos à temática e uma apresentação em powerpoint com dez situações de alertas. Foi-lhes pedido que, em grelha própria (aqui) comentassem as imagens referentes às nove situações. À medida que as situações iam sendo apresentadas, os alunos trocavam opiniões entre si e tiravam dúvidas com o professor.

Foram aulas diferentes e mais dinâmicas, todos os alunos se envolveram nas discussões e na resolução das atividades propostas. 

Alguns exemplos de comentários redigidos pelos alunos em grupos de 2 ou 3:

Situação 1:
"Segundo a imagem, antes de publicarmos algo, devemos pensar muito bem no que vamos escrever ou publicar..."
" Temos de pensar antes de publicar, pois temos de ter em mente que as pessoas irão ver a nossa publicação."

Situação 2:
"Não devemos confiar em pessoas que não conhecemos pessoalmente."
"Não devemos marcar encontros, nem partilhar nada sem saber quem é verdadeiramente a outra pessoa."

Situação 3:
"Não devemos acreditar em tudo o que nos é dito na internet."
"Nem tudo o que está nas redes sociais é real."

Situação 4:
"Não deves dar os teus dados pessoais , sem confirmares se é fiáve.l"
"Não podemos dar os nossos dados pessoais  pois podem ser causa de phishing."
"O perigo de usar contas de bancos e preenchimento de formulários na internet."

Situação 5:
"Não devemos dar nem por informações na internet sobre terceiros."
"Existem regras na internet. Se queres ser respeitado, deves também respeitar os outros."

Situação 6:
"Ciberbullying consiste em humilhar, criticar, expor os outros fazendo-os sentir mal".
"Não se deve fazer ciberbullying porque cada um tem o direito de ser como é."
"Não devemos fazer ciberbullying e se o sofrermos, devemos falar com um adulto de confiança."

Situação 7:
"As redes sociais afastam as pessoas, pois em vez de comunicarem pessoalmente, comunicam pelas redes socias, assim perdendo o afeto."
"Não deixes que as redes sociais te afastem das pessoas."

Situação 8:
"As informações pessoais colocadas na internet podem ser utilizadas por outras pessoas para causar mal."
"Não deves colocar fotos íntimas e vídeos nas redes sociais."
"Os pais das crianças publicam fotos e informações dos seus filhos sem ter noção de quem as vê."

Situação 9:
"Não entres em sites não seguros."
"Não devemos abrir mensagens, emails que não conhecemos."

Situação 10:
"Nunca divulgues a tua localização, nem se sais dela."
"Partilhar informações pessoais pode ter consequências negativas."
"A Ana está a dizer, a possíveis assaltantes que a sua casa vai ficar sem ninguém. Má ideia."








21 de fevereiro de 2016

Lamento para a língua portuguesa





não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer

e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.


Vasco Graça Moura (1942-2014)


Dia Internacional da Língua Materna