No dia 27 de maio realizou-se mais uma tertúlia literária, sendo a última deste ano letivo.
Na sessão anterior (11 de março) tinha sido decidido que terminaríamos "tertuliando" sobre livros de autores africanos de expressão portuguesa para, assim, simultaneamente, assinalarmos o " Dia de África, que se celebra a 25 de maio. Desconhecíamos, na altura, que íamos estar confinados e que a nossa tertúlia poderia não se concretizar.
Mas como a vontade e o prazer de ler ultrapassam barreiras, não havia razão para que não se realizasse, bem pelo contrário...
Assim, no dia agendado, juntámo-nos, via meet, e tivemos uma conversa animada. Confesso, que gostei muito desta sessão porque falámos de vários livros, de vários autores (cada "tertuliante" leu o que tinha em casa, já que as bibliotecas se encontravam fechadas) e foi surpreendente a diversidade de títulos e de autores apresentados. Alguns alunos que não tinham livros que encaixassem no tema não se inibiram de ler outros e de os apresentar.
Foi, no entanto, diferente porque não nos vimos todos, não presenciámos as reações de cada um, não folheámos os livros dos outros, não convivemos à volta da mesa bebendo chá de ervas da D. Cristina e comendo um bolo qualquer, porém, se a minha memória não me falha, teve o maior número de participantes, e se me permitem, gostaria de destacar o número de alunos - 4 do 7.º ano e 3 do ensino secundário. Participaram ainda 9 docentes, 1 funcionária, 2 encarregadas de educação e 1 convidada.
Fica o registo de algumas presenças e uma imagem com as capas dos livros apresentados/lidos.
Ficam como sugestões de futuras leituras!
OPINIÃO
Os Transparentes, de Ondjaki
Começo por afirmar que adoro os livros de Ondjaki. É um maravilhoso contador de estórias. E neste, tudo é encantador e comovente: a escrita poética, os nomes das personagens, o vocabulário tão particular, a mensagem…
“- não te assustes - murmurou o VendedorDeConchas abraçando-a devagarinho -, eu sou o mar a chegar perto de uma concha…
- não me assustei – sorriu Amarelinha -, estou a olhar a lua”
Este livro, como muitos dos que já publicou, tem como cenário Luanda e apresenta uma panóplia de personagens-tipo fantásticas que abarcam todas as classes sociais.
Ondjaki revela-nos uma Luanda actual, mas muito degradada, corrupta e sobretudo desumana. A sua visão crítica desta cidade em transformação é-nos revelada de forma precisa e irónica, claro, mas também humorística. Há descrições sublimes.
“- mas quem manda em tudo isto?
- gente muito superior
- superior… como deus?
- não. Superior mesmo! Aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus.”
É através dos modos de vida, dos dramas e sobretudo dos diálogos fabulosos das personagens que vivem no prédio, do LargoDaMaianga, que percebemos a agitação que assola o povo africano, a corrupção que reina na capital e por inerência no país, a miséria e a fome de muitos, mas também a dignidade de um povo que luta, a solidariedade dos vizinhos…
“- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer… nós somos transparentes porque somos pobres.”
“era um prédio, talvez um mundo,
para haver um mundo basta haver pessoas e emoções. as emoções, chovendo eternamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos. as pessoas talvez não sejam mais do que sonhos ambulante de emoções derretidas no sangue contido pelas peles dos nossos corpos tão humanos. A esse mundo pode chamar-se”vida”.
…
nós somos a continuidade do que nos cabe ser. a espécie avança, mata progride, desencanta, permanece. a humanidade está feia – de aspeto sofrido e cheiro fétido, mas permanece
porque tem bom fundo.
É isto! Leiam!
Graciosa Reis





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