24 de setembro de 2014

A longa viagem da literacia




(Imagem retirada da internet)


Penso mesmo que o défice educacional dos portugueses é a maior pecha do país. E é essa a principal razão que explica a dificuldade que temos tido em recuperar do nosso atraso no desenvolvimento face aos países mais avançados.



Portugal é um país que, fruto de ter vivido em ditadura até tarde demais, tinha, nos anos setenta do século passado, um dos mais vergonhosos níveis de alfabetização do mundo ocidental. Só depois da implantação da democracia, e da consequente massificação do ensino, é que Portugal começou a encetar um processo de recuperação do atraso educacional da sua população.
Hoje, já estamos melhor. Mas ainda nos falta um longo caminho. Continuamos com taxas de escolarização das mais baixas da OCDE, e isso tem implicações profundas na nossa condição social, económica e política.
Penso mesmo que o défice educacional dos portugueses é a maior pecha do país. E é essa a principal razão que explica a dificuldade que temos tido em recuperar do nosso atraso no desenvolvimento face aos países mais avançados.
É que cidadãos pouco escolarizados têm pouca eficiência produtiva, têm pouca exigência cívica e têm dificuldades em fazer escolhas políticas mais esclarecidas. E tendem a desvalorizar a ciência e o ensino, considerando-as actividades supérfluas.
Apesar dos níveis de instrução que a nossa população mais jovem já apresenta (com percentagens de licenciados próximas das de alguns países ocidentais), ainda se nota um grave défice ao nível da literacia. É que literacia é diferente de alfabetismo. Não basta saber ler as palavras ou escrevê-las. É preciso compreender o conteúdo de um texto e saber exprimir um pensamento. E nisso, há uma carência confrangedora.
As caixas de comentários na internet são uma amostra triste, mas real, da iliteracia que ainda grassa na população portuguesa, mesmo nas camadas jovens. Vejo muita gente a comentar textos só por um título ou um parágrafo (o que é completamente descabido) ou, quando conseguem concentrar-se e ler um texto de uma página do princípio ao fim, os comentários que fazem demonstram que não perceberam nada do que está escrito. Normalmente, esses que nada entenderam também não se conseguem expressar nos seus comentários: escrevem num português incorrecto (tanto na ortografia como na sintaxe) e mostram uma confusão no raciocínio assustadora.
Lembro-me bem das aulas de português, no secundário, em que nos era pedido para interpretarmos textos nos testes. Lembro-me, também, que o nível de dificuldade desses testes não era elevado mas, apesar disso, as notas, em média, não eram boas. Não gabo a sorte dos professores de português que corrigem esses testes e que têm como função promover a literacia, mesmo daqueles que acham que não precisam de aprender…

Eu só tenho experiência lectiva no ensino superior. E, mesmo nesse ambiente, e sempre em boas universidades, já me deparei com textos muito mal escritos de pessoas a quem, claramente, lhes faltam competências de literacia.
A longa viagem da literacia demora muito tempo. É preciso que as gerações se sucedam para que a escola seja cada vez mais valorizada e para que, também em casa, os alunos tenham quem lhes promova a literacia. Até lá, as caixas de comentários da Internet vão continuar poluídas por quem pouco entende e muito mal diz.



Texto de Gabriel Leite Mota • 22/09/2014 in P3

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